Sociedade Psicológico
A SOCIEDADE DO FAZ DE CONTA . . .
Adoecemos ao Trocar Crianças por Bonecos?
16/05/2025 13h49 Atualizada há 1 ano
Por: Vanessa Maia Fonte: própria
crédito: imagem retirada da internet

Em um mundo cada vez mais dominado pelas aparências e pelas realidades artificiais, surge um fenômeno que, à primeira vista, pode parecer apenas excentricidade: os bebês reborn. Bonecos hiper-realistas, com peso, textura e aparência idênticos a recém-nascidos, que estão sendo tratados por muitos adultos como se fossem filhos de verdade. O que antes poderia ser classificado como hobby ou arte, hoje beira o patológico — e levanta uma pergunta inquietante: até que ponto a sociedade perdeu a noção da realidade?

QUEM NUNCA TEVE UMA BONECA QUE GUARDOU DE RECORDAÇÃO DA INFÂNCIA????

Eu mesma, quando tinha apenas três meses de idade, ganhei uma boneca que guardei com carinho por quase 40 anos. Para mim, era uma lembrança da infância, um símbolo afetivo, que trazia de volta a doçura de um tempo inocente. Isso é natural. Guardei essa boneca como uma recordação do passado, e jamais pensei em tratá-la como uma criança real.

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Eu tenho uma foto com um bebê reborn — e reconheço a beleza e o realismo desse trabalho. Se tivesse uma filha, provavelmente compraria um reborn como brinquedo, para que ela cuidasse em seu faz de conta. Mas há uma linha clara entre o lúdico e o patológico. E infelizmente, essa linha tem sido cruzada por muitas pessoas.

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Recentemente, casos extremos vieram à tona: adultos que levam bonecos reborn a maternidades, solicitam exames médicos, simulam partos completos com "estouro de bolsa". Isso sem contar disputas judiciais de guarda entre casais separados.

Sim, isso está acontecendo!!!.

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Depois de uma mulher levar um bebê reborn, como são chamados os bonecos ultrarealistas que imitam recém-nascidos, ao posto de saúde sob argumento de que o inanimado estava com “febre”, parlamentares estão propondo leis para criminalizar quem ocupa leitos e serviços médicos com bonecos, tirando o lugar de pacientes reais. O texto da proposta prevê multa de até dez vezes o valor do serviço prestado pela rede hospitalar. A situação deixa de ser uma escolha pessoal e vira um problema social.

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Em contrapartida, também vemos situações que levantam um novo debate sobre os limites do incentivo ao irreal. Em Sorocaba (SP), por exemplo, o prefeito Rodrigo Manga reconhecido por sua atuação eficiente, projetos sociais e pela transformação positiva da cidade — abriu um espaço dentro da prefeitura, aos domingos, destinado a encontros entre famílias e bebês reborn. A proposta permite que crianças e adultos passem até 20 minutos com os bonecos, trocando fraldas, recebendo certidões de nascimento e até RGs simbólicos. Tudo em nome do entretenimento e sem custo para o município.

Embora a intenção seja promover momentos de lazer e inclusão, essa ação expõe uma grave inversão de valores: enquanto milhares de crianças reais vivem à espera de adoção, em condições de vulnerabilidade, espaços públicos estão sendo mobilizados para brincar de cuidar de bonecos, como se fossem seres humanos.

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AS CRIANÇAS REAIS SE TORNARAM EM INVISÍVEIS!!! 

Enquanto isso, mais de 30 mil crianças e adolescentes vivem em abrigos no Brasil, esperando uma chance de serem acolhidos por uma família de verdade. Crianças reais, com sentimentos, traumas, fome e frio, que sonham com afeto e proteção. Crianças que precisam de amor, de presença, de atenção. Que precisam ser vistas. A fila de adoção, burocrática e excludente, revela o desinteresse por essas vidas verdadeiras, principalmente pelas mais velhas, negras ou com irmãos.

A ironia é dolorosa: enquanto milhares de meninos e meninas aguardam anos por uma adoção, adultos constroem vínculos afetivos profundos com bonecos. Não é o boneco em si o problema. O que assusta é a escolha de investir tanto carinho, tempo e dinheiro num objeto inanimado, enquanto se ignora quem realmente precisa de acolhimento.

Psicólogos reconhecem que, em alguns casos, os reborns podem ter função terapêutica, especialmente após perdas ou em tratamentos emocionais. Mas há um limite saudável. Quando se passa a tratar o boneco como filho, esquecendo-se do outro humano — seja ele um idoso sozinho, uma criança carente ou um vizinho em sofrimento — há um desequilíbrio que precisa ser olhado com seriedade. É paradoxal que, em plena era da informação, tantas pessoas estejam voltando-se ao irreal. 

A DOENÇA DO VAZIO NAS PESSOAS . . .

A maternidade de bebês reborn, que oferece desde "partos simulados" até certidões de nascimento fictícias, cobra caro pela fantasia. O que deveria ser apenas um simulacro da infância, tornou-se um estilo de vida baseado na ilusão. E o mais preocupante: enquanto adultos se afeiçoam a bonecos, crianças de carne e osso são ignoradas, desnutridas, violentadas e esquecidas.

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ACORDA PARA A VIDA . . . VIDA REAL!!!!

Não se trata de demonizar os reborns. . . Não se trata de julgar quem compra um reborn como uma forma de arte ou lembrança. O problema é o uso desequilibrado, a fuga da realidade, o abandono do outro humano em troca de um simulacro emocional.

A sociedade adoece quando normaliza o anormal. Quando trata com mais cuidado um boneco de silicone do que uma criança em situação de vulnerabilidade. Quando ignora as filas de adoção em nome de um afeto fabricado.

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É hora de repensar prioridades. . . de lembrar que amor não se projeta num objeto: se constrói na relação, na presença e no cuidado com o outro. Um boneco nunca vai precisar de colo de verdade. Uma criança, sim.  Amar é mais do que projetar sentimentos num objeto: é agir para transformar a vida de quem precisa. E isso, definitivamente, boneco nenhum é capaz de fazer.

Está na hora de acordar. De sair do faz de conta e olhar para a dura, mas transformadora realidade. Porque só ela pode nos devolver o que há de mais bonito na vida: o afeto humano.